Nas últimas semanas, você certamente viu a quantidade de protestos contra a posição do presidente Trump sobre a imigração. Parece que até os cristãos estão revoltados e chamando Trump de homem antiamericano, desumano e de coração frio… e com razão (a julgar pela forma como ele descreve os imigrantes e trata as crianças). Mas queremos lançar alguma luz sobre como os cristãos que creem na Bíblia devem pensar sobre a questão da imigração. Em outras palavras, qual é o verdadeiro ensino bíblico sobre a imigração e sobre a nossa atitude em relação a ela? Ou, pelo menos, que princípios podemos extrair das Escrituras para nos ajudar a ter uma perspectiva centrada em Deus sobre o assunto?
A Terra da Liberdade, com sua icônica Estátua da Liberdade proclamando os ideais que tanto prezamos, é um lugar onde muitas pessoas só sonham em pôr os pés. Fomos abençoados como país, enquanto outras terras foram bem menos afortunadas, e algumas vivem em total desespero mesmo no século 21. Então, devemos nós, como pessoas que servem a um Deus de amor, defender uma posição de “fronteiras abertas” sobre a imigração, ou de “fronteiras fechadas”… ou algo entre as duas? Vejamos o que a Bíblia diz.
A imigração no Antigo Testamento…
No Antigo Testamento, Deus ordenou a Israel que tratasse os estrangeiros com dignidade e respeito:
- “E ao estrangeiro não enganarás, nem angustiarás, porque estrangeiros fostes vós na terra do Egito” (Êxodo 22:21).
- “E quando o estrangeiro morar contigo em vossa terra, não o oprimireis” (Levítico 19:33).
- “Amareis pois ao estrangeiro: porque estrangeiros fostes vós em terra do Egito” (Deuteronômio 10:19).
Mas a palavra traduzida como estrangeiro nesses e em outros versículos se refere a um forasteiro que seguiu os procedimentos legais para obter uma condição reconhecida de estrangeiro residente em Israel, segundo James Hoffmeier em seu livro The Immigration Crisis: Immigrants, Aliens, and the Bible. Na língua hebraica, há duas palavras usadas para distinguir entre estrangeiros residentes e simples estrangeiros. Nos versículos acima, usa-se a palavra para estrangeiros residentes (gēr), enquanto em outros versículos são usadas as palavras para estrangeiros de passagem (nekhar e zar). Os estrangeiros de passagem não tinham a mesma condição legal e os mesmos privilégios que os israelitas e os estrangeiros residentes reconhecidos.
Além disso, “em nenhum lugar do Antigo Testamento há qualquer indicação de que uma nação tinha de aceitar imigrantes, nem de que ser recebido como estrangeiro fosse um direito” (Hoffmeier). Ainda assim, hoje, como naquela época, os estrangeiros devem ser tratados com dignidade, respeito e amor. São pessoas feitas à imagem de Deus, a quem Deus ama, e devem ser tratadas com justiça. Muitos imigrantes arriscam a vida para chegar à “Terra da Liberdade”, buscando asilo de governos corruptos e perversos que os privam de seus direitos básicos. Mas, por mais que tentemos como país, simplesmente não podemos acolher todas as pessoas que vivem sob tirania e que gostariam de fazer dos Estados Unidos o seu novo lar… isso não seria viável, nem sábio.
No Novo Testamento…
Ao percorrer o Novo Testamento, não encontramos referências diretas à imigração, mas encontramos versículos que falam de governos estabelecidos por Deus para o bem do povo (Romanos 13:1-7; 1 Pedro 2:13-14). É importante notar que esses governos são estabelecidos para o bem do seu próprio povo, o que significa que quaisquer leis e decretos devem visar, antes de tudo, o benefício, a segurança e a tranquilidade das pessoas governadas.
É claro que isso não significa que devemos, com indiferença, deixar de ajudar quem está de fora e realmente precisa, mas não ao custo de levar o próprio país ao colapso (seja ele econômico, de segurança, social ou de qualquer outro tipo). Nos EUA, a nossa Constituição define esses propósitos: “…os governos são estabelecidos para garantir a tranquilidade interna, prover a defesa comum e promover o bem-estar geral”. Ainda assim, aqueles que usam os versículos acima para apoiar leis de imigração rigorosamente desumanas o fazem à custa do evangelho.
Por outro lado, às vezes outras pessoas publicam versículos do Novo Testamento ditos por Jesus para tentar justificar sua atitude de “todos são bem-vindos” em relação à imigração e para supostamente “denunciar” os cristãos que não estariam seguindo o seu amado líder. Um desses versículos é Mateus 25:35, que diz: “fui forasteiro, e me acolhestes”. À primeira vista, o versículo parece óbvio e capaz de derrubar qualquer posição contrária, mas, examinando o texto com cuidado, descobrimos que Jesus não está falando de imigração nem de estrangeiros. O versículo em seu contexto é:
31 “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então ele se assentará sobre o trono de sua glória. 32 E serão ajuntadas diante dele todas as nações, e separará as pessoas umas das outras, assim como o pastor separa as ovelhas dos bodes. 33 E porá as ovelhas à sua direita, porém os bodes à esquerda. 34 Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Herdai o Reino que está preparado para vós desde a fundação do mundo. 35 Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; fui forasteiro, e me acolhestes; 36 estive nu, e me vestistes; estive doente, e cuidastes de mim; estive na prisão, e me visitastes’. 37 Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer, ou com sede, e te demos de beber? 38 E quando te vimos forasteiro, e te acolhemos, ou nu, e te vestimos? 39 E quando te vimos doente, ou na prisão, e viemos te visitar?’ 40 E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo que, todas as vezes que fizestes a um destes menores dos meus irmãos, fizestes a mim’.”
Nesses versículos, Jesus está falando do Reino dos céus e de quem estará nele. As ovelhas são os Seus seguidores (ou seja, os crentes nascidos de novo), e os bodes são todos os demais. Jesus então diz às Suas ovelhas que elas herdarão o Reino porque Lhe deram de comer, Lhe deram de beber, O acolheram, O vestiram e O visitaram. Jesus deixa claro que aqueles (os justos, ou seja, os crentes) que fizeram isso por Ele serão abençoados. Mas como alguém hoje poderia fazer isso… dar de comer a Jesus ou vesti-Lo? Bem, a resposta está no último versículo, o v. 40. Jesus diz que quem fez isso “a um destes menores dos meus irmãos” fez a Ele.
Então a pergunta passa a ser: quem são os irmãos e irmãs de Jesus? Bem, somos nós; nós, cristãos. Veja, o que esses versículos realmente dizem é que quem ajuda um cristão (especialmente outro crente) será abençoado, porque seria como se estivesse ajudando o próprio Jesus (afinal, Ele habita nos crentes!). Veja, Deus cuida dos Seus filhos e, por extensão, daqueles que ajudam os cristãos. Portanto, esses versículos não têm absolutamente nada a ver com imigração, estrangeiros ou qualquer coisa do tipo. O mesmo vale para aquele famoso versículo sobre dar um copo de água a alguém: esse “alguém” seria um cristão! Leia nosso artigo “O copo de água fria: o que realmente significa”.
É claro que o ensino mais amplo desses versículos é que é bom ajudar quem está em necessidade; todos devemos ser “bons samaritanos”. Na verdade, é verdade que podemos estar ajudando anjos sem saber (Hebreus 13:2). Nós, cristãos, devemos nos esforçar para estender a mão a quem precisa, sem levar em conta etnia, cor, país de origem, sexo, religião etc. Mas, ao mesmo tempo, a única maneira de podermos ajudar os outros é se nós mesmos formos fortes como país e como povo, e isso inclui ter leis em vigor que preservem esse fim.
E a imigração ilegal?
Agora, quanto à imigração ilegal, aqui está um resumo do que o teólogo Wayne Grudem acredita que deve ser feito (tirado do seu livro Politics According to the Bible):
- Fechar as fronteiras, pelo menos até que melhores políticas e procedimentos sejam criados.
- Promover uma reforma abrangente do sistema de imigração (e o ensino sobre ele nas escolas), acabando com a migração em cadeia e tendo uma imigração mais controlada.
- Ampliar o número de trabalhadores qualificados admitidos nos EUA.
- Impor regras mais rígidas aos empregadores com relação a imigrantes ilegais.
- Deportar todos os criminosos conhecidos que estão no país ilegalmente.
- Exigir algum tipo de registro temporário imediato para que os imigrantes recebam qualquer serviço de qualquer instituição nos EUA (assistência social, Medicaid, escola etc.).
- Um caminho difícil, mas possível, para a cidadania plena.
Ter uma posição de “fronteiras abertas” sobre a imigração como cristão é equivocado e ingênuo. Nenhum país consegue suportar o peso de milhões e milhões de imigrantes chegando em busca de ajuda e asilo; isso é impossível, mesmo para a nação mais próspera da Terra. A Bíblia está cheia de histórias de nações ou lugares protegidos por muros, então usá-los não é moralmente errado (2 Crônicas 14:7, 27:3; Salmos 51:18; Esdras 5:8; Isaías 26:1; Neemias 12:2; 1 Reis 3:1). Na verdade, muros derrubados numa cidade são sinal de opróbrio e juízo de Deus (Provérbios 25:28; Deuteronômio 28:52; Neemias 2:13; Salmos 80:12, 89:38-40).
Ao mesmo tempo, ter uma posição de “fronteiras fechadas” sobre a imigração (e queremos dizer bem fechadas, sendo quase impossível entrar, mesmo legalmente) também é equivocado e ingênuo. As pessoas sempre encontrarão um jeito de entrar no nosso país, e quanto mais difícil for entrar legalmente, mais pessoas tentarão entrar ilegalmente. Portanto, o melhor é adotar uma posição intermediária entre “fronteiras abertas” e “fronteiras fechadas”, que ofereça asilo a quem realmente precisa e, ao mesmo tempo, proteja o nosso país de indivíduos e grupos perigosos.
Além disso, ter leis, regulamentos e procedimentos que organizem melhor a imigração não significa que nós, como país e como povo, deixamos de ser compassivos, amorosos e prestativos. Não há motivo para não podermos ter leis de imigração rigorosas e, ao mesmo tempo, mostrar compaixão para com quem realmente precisa, na medida em que pudermos acolher. Além disso, a melhor maneira de podermos mostrar compaixão é ajudar os países a melhorar as condições da maioria do seu povo, para que a maior parte possa permanecer em sua amada terra natal; esse é um dos passos mais benéficos que podemos dar para eliminar a pobreza mundial e os problemas de imigração.
Conclusão
Em conclusão, a prioridade do povo deve ser proteger o seu país de ameaças imediatas à segurança nacional. A principal função do governo é nos manter seguros e, se ele julgar necessário fazer algumas das coisas listadas acima para garantir a nossa segurança e prosperidade, então é isso que deve ser feito. É fato que muitos imigrantes que atravessam as fronteiras ilegalmente representam um peso e um perigo para a nossa sociedade, e é por isso que políticas, regulamentos e práticas de imigração sensatas devem ser aplicados.
É claro que, como reconhecemos, há momentos em que pessoas boas, perseguidas e feridas tentam fugir de sistemas de governo opressores (como cubanos, venezuelanos, sírios e até mexicanos). Elas buscam refúgio e asilo nos EUA, mas isso não significa que tenham o direito de entrar ilegalmente sem nenhuma tentativa de fazê-lo legalmente. Suas ações ilegais contribuem para o esgotamento dos nossos recursos cada vez mais escassos (e para o aumento da dívida), tirando proveito de um sistema generoso que é abusado diariamente. Como dissemos acima, precisamos primeiro ajudar as pessoas onde elas estão… em seus próprios países.
Algo definitivamente precisa ser feito em relação à imigração ilegal… e essa é uma questão tanto moral quanto logística, que deve ser resolvida como tal. Por isso, precisamos continuar orando pelo nosso presidente e pelo seu gabinete, para que tomem decisões sábias, que honrem a Deus, que protejam o nosso país e, ao mesmo tempo, estendam uma mão amorosa e prestativa a quem realmente precisa, sempre que possível. Há um velho ditado que diz: “Os Estados Unidos são grandes porque são bons, e se um dia os Estados Unidos deixarem de ser bons, deixarão de ser grandes.” Este país, construído sobre princípios judaico-cristãos, deve sempre se esforçar para demonstrar o amor de Deus, para ser bom… e que isso comece por nós, cristãos.








