Em um estudo bíblico recente sobre a graça de Deus, foi feita à pessoa que estava ensinando uma pergunta que merecia mais explicação do que o tempo permitia naquele momento. Talvez seja uma pergunta com a qual muitos cristãos lutam e, se ainda não lutam, logo lutarão em sua caminhada com o Senhor. É uma questão que precisa ser pensada a fundo para que se compreendam as suas implicações. Então, qual era essa pergunta tão perspicaz? Era esta: “Esforçar-se ativamente para não pecar é considerado uma obra?”
Algumas pessoas podem pensar: “Como é que não fazer algo pode contar como fazer algo?!” A resposta é: quando tentamos não fazer alguma coisa, ao mesmo tempo estamos tentando fazer outra. Por exemplo, quando um homem tenta não comer uma pizza inteira sozinho, ele está tentando se manter saudável, ou pelo menos não sofrer as consequências depois da digestão; e quando uma esposa tenta não rebaixar o marido, ela está tentando ser amorosa e respeitosa com ele, ou pelo menos se poupar dos comentários secos dele. Trazendo isso para a nossa questão, tentar não pecar também pode ser tentar fazer outra coisa, como agradar a Deus, a si mesmo ou aos outros, a fim de obter satisfação interior ou favor exterior.
Além disso, a pergunta “Esforçar-se ativamente para não pecar é considerado uma obra?” levanta questões sobre onde e como a graça e as obras se encaixam, ou não, na nossa salvação e santificação. A pergunta nos deixa em dúvida se é certo nos esforçarmos ativamente para não pecar, porque, se fizermos isso, pode ser considerado uma obra, o que aparentemente vai contra a graça. A graça de Deus de fato nos livra de ter de alcançar a nossa salvação por meio de obras; então Deus também não deveria nos livrar de ter de trabalhar pela nossa salvação ou pelo Seu favor tentando não pecar? Bem… Ele livra.
A natureza da graça de Deus
Um dos aspectos confusos desse tema, a graça, é que se fala dela, se ensina sobre ela e se vive como se ela fosse um conceito abstrato, separado da pessoa de Jesus Cristo; como se a graça fosse uma “coisa”. Em outras palavras, muitas vezes ouvimos frases como: “apoie-se na graça”, “a graça libertou você”, “os meios de graça” etc. Mas, como afirma Sinclair Ferguson, “Não foi uma coisa que foi crucificada para nos dar uma coisa chamada graça. Foi a pessoa do Senhor Jesus que foi crucificada para que Ele pudesse dar a Si mesmo a nós por meio do ministério do Espírito Santo.” É o próprio Jesus, o próprio Deus, quem nos dá a Sua graça, quem nos dá a Si mesmo.
Por isso, é sempre melhor falar da graça com um qualificativo: dizendo, então, algo como “a graça de Deus”, “a graça de Cristo”. Então, o que exatamente é a graça de Deus? No Novo Testamento, a palavra “graça” traduz a palavra grega charis, que significa “favor, bênçãos e bondade demonstrados a alguém”. Paul Enns, um teólogo, diz: “a graça pode ser definida como o favor imerecido de Deus para com aqueles que estão debaixo de condenação”. Deus estende a Sua graça imerecida a nós; a graça exige uma pessoa que a conceda.
A natureza das obras
Em contraste com receber a graça de Deus está a noção de trabalhar, mas especificamente trabalhar pela nossa própria salvação ou pelo favor e pelas bênçãos de Deus. Embora Deus queira que “exerçamos a nossa salvação” (Filipenses 2:12), no sentido de permitirmos que o Espírito Santo nos santifique, ou de praticarmos boas obras a partir da salvação que já recebemos, Ele não quer que tentemos trabalhar pela nossa salvação ou pelo Seu favor; isso anularia o propósito e a definição da Sua graça.
Quando alguém trabalha por algo, a recompensa ou o pagamento recebido é exatamente isso: um pagamento merecido. Mas Deus não quer que ninguém possa se gloriar na sua capacidade de fazer qualquer coisa, muito menos de conquistar ou merecer a sua salvação (Efésios 2:8-9). Tentar trabalhar em direção à salvação, ou por ela, é essencialmente dizer a Deus que podemos fazer melhor e de forma mais completa do que Ele fez; é o próprio pecado do orgulho, e na sua máxima potência!
Não pecar é uma obra?
Agora chegamos à nossa pergunta: esforçar-se ativamente para não pecar é considerado uma obra? A resposta curta: sim, tanto para o descrente quanto para o crente, especialmente quando se tenta fazer isso na carne. Isso é algo que Deus não quer que façamos. Não devemos tentar ativamente não pecar com as nossas próprias forças; na verdade, nem conseguimos fazer isso! A questão, porém, é: qual é o nosso motivo para não querer pecar? É porque estamos tentando obter a salvação ou o favor de Deus, ou é porque O amamos e queremos agradá-Lo? O segundo motivo é nobre, mas ainda assim não conseguimos sozinhos (Romanos 7:18, 8:6-8); e nunca estaremos num estado de perfeição sem pecado até recebermos os nossos corpos glorificados na segunda vinda de Cristo.
Por outro lado, porém, como crente que anda no Espírito, quando você se esforça para não pecar, é realmente você quem está trabalhando? Não é Deus trabalhando em você, ou seja, o Espírito Santo fazendo a obra? O apóstolo Paulo diz assim: “Já estou crucificado com Cristo. Estou vivendo não mais eu, mas Cristo vive em mim; e vivo a minha vida na carne por meio da fé no Filho de Deus, que me amou, e entregou a si mesmo por mim” (Gálatas 2:20). Portanto, não se trata tanto de trabalharmos, mas de morrermos para nós mesmos e para os nossos desejos carnais. As duas coisas são ações, mas trabalhar para não pecar é realizar a ação errada; devemos nos dedicar a morrer para nós mesmos e a nos concentrar em Cristo em nós.
Consequentemente, como cristãos, devemos permitir que o Espírito Santo trabalhe em nossa vida, e não recorrer à confiança na nossa carne, pois certamente fracassaremos. Paulo diz em Romanos 8:13: “porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas se, pelo Espírito, fizerdes morrer as ações do corpo, vivereis”. E novamente, ele diz em Gálatas 5:16-17: “Mas eu digo: andai no Espírito, e não executeis o mau desejo da carne. Pois a carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem mutuamente, para que não façais o que quereis”.
Agora, é verdade que continuamos sendo nós mesmos quando Cristo entra em nossa vida; ou seja, nós continuamos sendo uma pessoa, uma alma, com uma vontade liberta. É por isso que, quando Paulo diz “pelo Espírito” (Rm 8:13), em seguida ele diz “fizerdes”, referindo-se a vós; e quando diz “andai no Espírito” (Gl 5:16), ele quer dizer que nós devemos andar. Esses exemplos implicam algum tipo de ação da nossa parte. Jesus não vai andar completamente por nós, mas conosco; e Ele pode nos carregar às vezes, mas nós precisamos, de certa forma, nos segurar nele (ou seja, permanecer nele). Então há, sim, um sentido em que temos pelo menos uma pequena participação na nossa santificação, mesmo que seja apenas pela nossa escolha de nos submeter a Deus, obedecer, confiar e amar a Ele, permitindo que o Seu Espírito trabalhe em nós.
Reflexão
Assim como a imagem deste artigo mostra um soldado carregando o amigo nos ombros, também devemos ter no coração a certeza de que Jesus nos dá cobertura e de que o Espírito Santo nos ajuda em nossas fraquezas. Mas isso não significa que não devamos continuar nos esforçando para andar perto de Jesus e permanecer nele, que tem o poder de nos salvar, nos santificar e nos ajudar a pecar menos. Somos fracos quando confiamos no nosso próprio poder, mas fortes quando nos apoiamos no poder de Deus. Quando somos tentados a pecar, Ele nos dá o escape (1 Coríntios 10:13). Embora Deus providencie o escape, o versículo dá a entender que nós fazemos algo (tomamos a saída); mas tomar a saída não seria considerado obra nossa, é simplesmente a nossa decisão de nos render à obra do Espírito dentro de nós, enquanto Ele nos conduz para fora daquela tentação. Em outras palavras, não podemos ficar com o crédito por isso, nem recebê-lo!
Além disso, se voltarmos ao primeiro versículo que citamos, em Filipenses, e continuarmos lendo o versículo seguinte, teremos a resposta para a nossa pergunta: “…exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir, conforme a sua boa vontade” (Filipenses 2:12-13). Portanto, em resumo, esforçar-se para não pecar é uma obra, mas é uma obra que devemos deixar que o próprio Deus realize em nós, pelo Seu Espírito Santo, à medida que nos rendemos a Ele. E, se você ainda estiver preocupado, lembre-se: o simples fato de você querer não pecar é evidência de que o Espírito Santo está em você (Gálatas 5:17). Agora concentre-se em Jesus fazendo a obra em você, e não em você fazendo a obra. Submeta-se a Ele e confie nele.
Que você seja encorajado hoje sabendo que “aquele que começou a boa obra em vós irá completá-la até o dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6). Amém.








