No nosso artigo anterior, levantamos e respondemos algumas perguntas sobre os dons espirituais no que diz respeito aos crentes. Concluímos que os dons espirituais são dados aos crentes pelo Espírito Santo para que cada um deles possa edificar a Igreja. Também apresentamos aos nossos leitores as principais listas da Bíblia onde os dons espirituais são mencionados: 1 Coríntios 12:4-11, 28; e Romanos 12:6-8.

Este artigo dará continuidade à discussão sobre os dons espirituais, levantando mais perguntas que são importantes de responder de forma verdadeira, bíblica e lógica. A nossa esperança é que as perguntas e respostas que apresentamos ajudem você na sua busca por entender mais sobre esses dons maravilhosos que o Senhor concede com tanta graça a nós, que cremos em Cristo. Embora toda a obra do Espírito nos crentes seja, de certa forma, um mistério, há respostas a que podemos chegar até para as perguntas mais desafiadoras.

Os testes de dons espirituais são confiáveis?

Uma ferramenta popular que muitas igrejas utilizam é algum tipo de teste ou inventário de dons espirituais para tentar discernir os dons espirituais das pessoas. Esses testes, supostamente, não só ajudam as pessoas que os fazem a possivelmente descobrir ou confirmar os seus dons espirituais, como também ajudam a liderança e os membros da igreja a perceber como uma pessoa pode ser útil dentro do corpo. Ora, embora esses recursos sejam em geral bons, eles têm as suas limitações e podem até causar danos se os testes não forem feitos e calculados de forma adequada. Esses inventários são feitos por homens, não serão 100% precisos e, às vezes, podem até estar 100% errados. Permita-nos explicar…

Quando as pessoas fazem testes em que julgam, por si mesmas, o que acreditam ser verdade sobre si, seus sentimentos, seus gostos, suas inclinações e preferências, é inevitável e quase certo que os resultados serão um tanto tendenciosos e distorcidos e, portanto, um pouco imprecisos. É da natureza humana escolher as respostas que refletem aquilo que nos “vemos” fazendo (mesmo que não o façamos), ou respostas que refletem aquilo que queremos nos ver fazendo (mesmo que não devêssemos; por exemplo, se realmente não temos determinado dom espiritual). Só esse ponto já pode desqualificar qualquer teste de inventário, mesmo fora das questões espirituais. A pessoa precisa ser muito objetiva para fazer esses testes adequadamente, e isso é difícil para a maioria.

Outro problema desses inventários e testes para descobrir dons espirituais é a realidade de que muitos dos dons espirituais listados na Bíblia podem ser confundidos com talentos e/ou traços de personalidade, e os testes não têm uma forma segura de separá-los. Alguns dons espirituais têm o seu equivalente secular, o que torna difícil para a maioria das pessoas distinguir entre eles, e isso pode levar ao desastre. Alguns exemplos seriam o ensino, o serviço, a liderança e a contribuição. Todos esses dons podem muito bem ser exercidos na carne, se a pessoa possui naturalmente essas características em alguma medida.

Pense nisso. Uma pessoa pode ter talento para ensinar, mas não o dom de ensino por meio do Espírito. Outras podem gostar de servir as pessoas (talvez porque foram criadas para fazer isso), mas o dom de serviço do Espírito Santo não é necessário para servir. Outras ainda podem ser grandes líderes naturais, mas não receberam o dom de liderança por meio do Espírito e para a Igreja. E, por fim, muitas pessoas podem adorar dar aos outros, mas o dom espiritual de contribuição não está necessariamente em ação. E ainda mais chocante é o fato de que alguns dos dons do Espírito podem ser falsificados pelo próprio Satanás. Os dons de milagres, de línguas (interpretadas como fala extática), de ensino (falsas doutrinas) e de conhecimento (conhecimento mundano) se encaixariam nessa categoria.

Por causa das limitações dos testes de dons espirituais, recomenda-se estabelecer certas salvaguardas e um sistema de “freios e contrapesos” ao tentar discernir os dons espirituais de alguém. Para chegar com mais segurança ao(s) verdadeiro(s) dom(ns) espiritual(is) de alguém, supondo que a pessoa seja crente, deve-se também pedir a opinião da liderança e dos membros da sua igreja, do seu cônjuge e da sua família próxima. Além disso, deve-se buscar a direção de Deus quanto ao desejo de usar cada dom em uma igreja local, com muita oração e reflexão. Um teste de dons espirituais, então, deve servir apenas como uma avaliação geral daquilo que você já deveria perceber em sua vida em relação aos seus dons espirituais, e não como a resposta sobre qual é o seu dom ou quais são os seus dons.

Como podemos distinguir entre talentos, traços de personalidade e dons espirituais?

Uma das perguntas mais interessantes que se fazem sobre os dons espirituais é como podemos distinguir entre um talento, um traço de personalidade e um dom espiritual. Isso, de fato, é quase impossível para qualquer teste espiritual distinguir. As pessoas ficam perplexas ao ver como alguém que não tem o Espírito Santo, ou que é descrente, pode possuir habilidades incríveis ou um talento prodigioso, além de boas inclinações naturais, muitas vezes atribuídas à sua genética, personalidade ou criação. Por isso, torna-se aparentemente difícil diferenciar o que é um talento, um traço genético/de personalidade ou um dom espiritual genuíno.

Precisamos começar a nossa resposta, então, afirmando que toda pessoa foi feita à imagem de Deus e que toda pessoa tem algum dom (ou dons) de Deus, seja crente ou não. Um talento é um dom que Deus dá a alguém para que essa pessoa O glorifique; o problema é que os descrentes usam os seus talentos para servir ou glorificar a si mesmos (ou à humanidade). A genética ou a personalidade de alguém também é algo que Deus cria; sim, com a ajuda de influências externas, como os nossos pais, família, amigos etc. Mas os dons espirituais são únicos, pois são dados somente aos crentes, e com um único propósito: edificar a Sua Igreja. Além de simplesmente nos orientarmos pelas listas de dons espirituais nas Escrituras, outra forma de distinguir entre um talento, um traço genético/de personalidade e um dom espiritual é observar a sua natureza e o momento em que surgiu. O dom é algo que foi cultivado e treinado ao longo de toda a sua vida, como uma habilidade musical? Se for, então provavelmente não é um dom espiritual… é um talento. Se você teve talento para a música a vida inteira (mesmo antes de se tornar cristão), então a sua habilidade é apenas isso. E se você sempre teve inclinação para servir as pessoas antes de se tornar crente, então isso pode ser um traço de personalidade. Se, no entanto, você nunca foi bom em ensinar antes de se tornar crente e, de repente, passou a ser capaz de ensinar a Palavra de Deus com eficácia depois que se tornou cristão, isso pode ser sinal de um verdadeiro dom espiritual. A natureza e o momento de um dom são uma ótima forma de discernir se ele é um dom natural ou um dom espiritual.

É claro que pode acontecer de você estar usando agora, para servir na sua igreja, os talentos e traços de personalidade que sempre teve, mas esse fato, por si só, não significa que você os tem como dons espirituais; mas, de qualquer forma, continue usando os seus talentos, traços e dons para servir e glorificar o Senhor! No fim das contas, nada do que você usa para agradar, servir e glorificar a Deus é feito em vão, e incentivamos você a se dedicar à obra do Senhor dentro da Igreja e no mundo. Com o tempo, cremos que Deus revelará a você quais são os seus verdadeiros dons espirituais que Ele quer que você use para a edificação da Sua Igreja; talvez você já esteja usando-os sem perceber.

Deus pode mudar ou tirar o(s) seu(s) dom(ns) espiritual(is)?

Esta é uma pergunta interessante e pode ser difícil de responder de forma conclusiva. Parece ser verdade que os crentes manifestam certos dons em diferentes momentos da sua caminhada cristã; então, isso significa que Deus muda de ideia sobre os dons que nos dá e muda ou tira o(s) nosso(s) dom(ns) espiritual(is) como bem entender? Visto que Deus não muda de ideia (pois isso implicaria que Ele é imperfeito), achamos melhor afirmar que Deus permite que determinado dom que Ele já nos deu brilhe mais ou menos em qualquer momento da nossa vida, e isso de acordo com a Sua vontade soberana. Mas, é claro, também pode ser que sempre tenha estado no plano de Deus mudar ou tirar o seu dom em um momento específico; daí a dificuldade de responder a essa pergunta de forma conclusiva.

Alguns podem argumentar que Deus pode mudar de ideia e, portanto, pode tirar os dons que nos deu se não estivermos amadurecendo como cristãos, se estivermos em pecado sem arrependimento, ou por qualquer outro motivo. Diríamos, no entanto, que, em vez de tirar os nossos dons espirituais, Deus simplesmente não nos permite usá-los de forma significativa dentro do corpo. Na prática, Ele nos disciplina e permite que fiquemos um tanto ineficazes no reino por um tempo, para que possa continuar a Sua obra santificadora em nós… até que nos arrependamos e voltemos “aos trilhos”, por assim dizer. Cremos, no entanto, que a mente dEle é perfeita e firme quanto aos dons que nos dá (ainda que em diferentes momentos da nossa vida): Deus não comete erros! Ele nos deu os nossos dons porque quer que os usemos e sabe que podemos ser/seremos eficazes usando-os com a Sua direção e bênção.

Deus dá dons espirituais com base no nível de maturidade da pessoa?

Relacionada à pergunta anterior (mas não igual a ela): é verdade que os crentes precisam estar em um nível específico de maturidade espiritual para que Deus os capacite com dons espirituais? Em outras palavras, os dons espirituais de Deus dependem da maturidade cristã de uma pessoa? Essa pode rapidamente se tornar uma pergunta muito controversa, pois poderíamos perguntar: “Quem algum dia está em um nível de maturidade ‘bom o suficiente’ para receber bênçãos de Deus?” A resposta é: ninguém… se não fosse por Cristo. No fim, todos nós somos achados em falta, mas é aqui que a Sua graça transborda!

Portanto, achamos difícil crer que Deus exija certo nível de maturidade para dar aos crentes os seus dons espirituais. Todos os crentes recebem o(s) seu(s) dom(ns) espiritual(is) no momento da salvação e devem usá-los na igreja local para a edificação dos seus membros. Embora os dons maiores possivelmente exijam muito mais cultivo e treinamento, o crente não precisa necessariamente ser maduro para recebê-los. Veja os coríntios, por exemplo: Paulo lhes disse (uma congregação espiritualmente imatura) em 1 Coríntios 1:7 que não lhes faltava nenhum dom espiritual. Se os dons dependessem do nível de maturidade, aqueles crentes certamente estariam sem alguns dons espirituais.

Portanto, pode ser verdade que Deus dá a pessoas imaturas até mesmo o dom de profecia; mas talvez Ele simplesmente não permita que elas o usem ainda, até que alcancem certo nível de maturidade. Em essência, essa visão evita ter de dizer que Deus muda de ideia de acordo com as ações (isto é, com o nível de maturidade) do Seu povo. Essa pergunta é o velho dilema “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”; pois o que vem primeiro: a graça de Deus ao dar dons espirituais às pessoas por causa de quem Ele é e para os Seus propósitos, ou a maturidade e a disciplina espiritual das pessoas para que recebam esses dons? A resposta é fácil: a galinha veio primeiro; a graça e os dons de Deus vêm primeiro para os crentes em Cristo, independentemente do seu nível de maturidade. Se não fosse assim, todos nós estaríamos em sérios problemas espirituais.

Reflexão

Embora alguns possam não concordar com as nossas conclusões, cremos que essas respostas são as que melhor se alinham com o que vemos nas Escrituras. Nunca vemos nenhuma evidência de alguém que tenha perdido os seus dons espirituais ou que os tenha tido tirados por Deus (exceto, talvez, no Antigo Testamento, porque o Espírito Santo se retirava da pessoa, o que não é o caso dos crentes do Novo Testamento). Vemos, sim, alguns que antes eram fortes e poderosos se tornarem ineficazes por um tempo, mas não fica claro que os seus dons lhes tenham sido tirados, seja por causa do nível de maturidade ou por outro motivo.

É concebível que Deus escolha esperar para dar a alguém um dom específico até o tempo certo, mas cremos que essa é uma decisão inteiramente dEle e uma obra dEle segundo a Sua vontade. Uma coisa é dizer que Deus só dá certos dons em momentos específicos para cumprir os Seus propósitos; outra bem diferente é dizer que Ele remove ou tira dons espirituais por causa do que fazemos ou deixamos de fazer. A primeira depende de Deus; a segunda, do homem. A primeira é movida pela graça; a segunda, pelo mérito.