Qual é a relação entre a fé e a razão? Essas duas realidades são polos opostos? O cristianismo é uma religião de fé sem razão; em outras palavras, a fé e a razão são mutuamente excludentes no que diz respeito ao cristianismo? É possível praticar a fé e a razão ao mesmo tempo, ou precisamos escolher uma ou outra para seguir a Jesus e crer na Bíblia? Essas são perguntas importantes que precisam de resposta; esse é o objetivo deste artigo.
A verdade
Antes de começar, vamos definir o que é a verdade. Há muitas teorias sobre o que é a verdade, mas a teoria ou definição mais convincente (embora incompleta) é que a verdade é aquilo que corresponde à realidade. Por exemplo, em um tribunal, a acusação precisa provar que os fatos alegados realmente aconteceram: eles precisam corresponder à realidade. Uma religião que afirma ser verdadeira precisa, portanto, fazer afirmações verdadeiras sobre a realidade: quem somos como seres humanos, quem Deus é e como nos relacionamos com Ele. Uma religião que não faz isso não tem valor e é uma mentira.
Conhecer a realidade
Mas como chegamos a saber que as coisas são do jeito que parecem ser em relação à realidade? Bem, os nossos cinco sentidos nos ajudam a discernir a realidade do mundo exterior; podemos chegar a conhecer muitas coisas por meio dos sentidos. Embora alguns digam que nunca podemos confiar nos nossos sentidos, não há base para duvidar seriamente deles, a menos que estejamos sob o efeito de alguma substância ou sejamos enganados por uma ilusão.
Mas a razão nos ajuda a chegar a saber como essas coisas (os nossos sentidos, incluindo o que ouvimos, como, por exemplo, as afirmações de verdade do cristianismo) correspondem ao verdadeiro estado das coisas, seja no passado, no presente ou no futuro. Usamos a nossa capacidade de raciocínio para adquirir novas verdades: uma coisa se apoia na outra, e o nosso entendimento vai se construindo sobre si mesmo; é assim que aprendemos que 2+2=4 depois de aprendermos o que significa o número um, e daí seguimos para o cálculo… bem, talvez não tão depressa!
Diz-se que a crença em Deus é uma crença apropriadamente básica (segundo o filósofo cristão Alvin Plantinga). Isso significa que a crença em Deus é fundamental e está fundamentada nas nossas experiências no mundo, por meio dos sentidos e da razão. Além disso, como os crentes são habitados pelo Espírito Santo, Ele é o refutador definitivo de quaisquer argumentos contra a verdade do evangelho, de modo que, mesmo que alguém não consiga apresentar uma defesa apologética impressionante, a presença do Espírito Santo bastaria para confirmar a essa pessoa que ela continua na verdade: que ela realmente conhece a realidade de Deus.
Aspectos da razão
A definição de razão no dicionário é: “a faculdade da mente de pensar, compreender e formar juízos por meio de um processo lógico”. A razão, portanto, envolve:
- Apreender (captar, perceber, compreender) algo na mente,
- Julgar (decidir, concluir) que algo é, foi ou será, e
- Raciocinar, que é passar de uma verdade conhecida para uma nova verdade.
Esses três aspectos da razão quase sempre acontecem ao mesmo tempo: a nossa mente foi criada de forma brilhante!
Fé: uma definição prática
Agora, vamos falar sobre a fé. Algumas pessoas insistem em definir a fé (no que diz respeito à religião) como “acreditar em algo quando o bom senso diz para não acreditar”; ou “acreditar em algo quando as evidências apontam para o contrário, ou sem nenhuma evidência”, ou seja, uma fé cega. Mas é esse o tipo de fé que nós, cristãos, temos ou somos chamados a ter? É esse o tipo de fé que as pessoas da Bíblia tinham?
Biblicamente falando, a fé é uma confiança pessoal em alguém ou em algo. A fé salvadora é uma confiança pessoal em Deus, que é fiel à sua Palavra. Em outras palavras, a fé é uma certeza firme, fundamentada na fidelidade de Deus, e uma expectativa segura do cumprimento de todas as promessas que Deus fez àqueles que confiassem nEle. É importante perceber que a fé não é contrária à razão, nem é irracional. Na verdade, a fé é mais do que razoável, pois Deus mostrou na história, repetidas vezes, que é fiel e digno de confiança. Seria irracional não confiar nEle. Para um panorama mais completo do que a fé é e do que não é, clique aqui.
Aspectos da fé
Há três aspectos da fé:
- Emocional: descrito na Bíblia como esperança (Hebreus 11:1); não apenas uma ilusão, mas a expectativa confiante de, no fim, receber aquilo que foi prometido (por exemplo, a salvação e a futura glorificação). Esse aspecto é fortalecido pela oração.
- Intelectual: o compromisso estável e inabalável fundamentado na verdade. Embora possamos não nos sentir fortes na fé, a nossa mente pode continuar comprometida em confiar em Deus por causa do que sabemos ser verdadeiro a respeito dEle (2 Timóteo 2:13). Esse é um dos benefícios de estudar apologética.
- Volitivo: o ato da vontade pelo qual nos comprometemos a viver, pensar e agir com base na Palavra de Deus. Esse aspecto fortalece a nossa fé (Mateus 25:21; Josué 24:15).
Há uma coisa, porém, que ainda não mencionamos a respeito da fé. Há um termo muito repetido na teologia: o “objeto” da nossa fé, que é a pessoa ou a coisa em que se confia. O objeto imutável e sempre fiel da nossa fé é Deus, Jesus Cristo, e isso inclui a sua Palavra (Salmos 119:160; João 17:17).
No entanto, o objeto último da nossa fé não são as proposições da Bíblia em si, mas Deus, cuja própria natureza garante a veracidade das proposições que Ele afirma. É importante notar que simplesmente aceitar proposições como verdadeiras não é o mesmo que confiar naquele que faz as afirmações. Precisamos chegar a confiar pessoalmente naquele que nos deu a sua Palavra, o Criador e Autor da vida (Hebreus 10:23).
Vale a pena mencionar que a razão sozinha não pode produzir fé, mas a nossa fé não é irracional. A melhor maneira, portanto, de entender a relação entre a fé e a razão é perceber que cada uma tem o seu papel próprio, e que a fé e a razão se complementam em seus respectivos papéis.
Reflexão
Embora seja o Espírito Santo quem capacita alguém a crer, Ele pode, às vezes, usar a apresentação de evidências da fé cristã (isto é, a apologética) como o meio pelo qual alguém chega a enxergar a verdade do evangelho. Mesmo assim, a pessoa continua livre para escolher crer ou não, pois a razão não a obrigará a crer.
Além disso, aqueles que não têm os recursos nem a instrução para conhecer todos os fatos e evidências a respeito do cristianismo ainda assim teriam razões para crer na Palavra de Deus ao lê-la ou ouvi-la. Por quê? Porque o Espírito Santo testemunharia e confirmaria a eles que aquilo com que tiveram contato é, de fato, verdadeiro.
Não somos chamados a ter uma fé cega, mas a usar a mente que Deus nos deu para apreender as verdades do evangelho. O maior mandamento de Deus, que Jesus afirma em Mateus 22:37, nos lembra: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento.”








